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COP15: gêmeos identificam aves migratórias a partir do quintal de casa

Enquanto líderes mundiais se preparam para discutir a proteção da biodiversidade na COP15, que acontece nos próximos dias em Campo Grande, uma iniciativa que começou no quintal de uma casa mostra como a preservação também pode nascer de pequenas observações do dia a dia. No Jardim Veraneio, a residência repleta de árvores frutíferas e uma espécie típica do Cerrado, a frondosa embaúba, que produz frutos praticamente o ano todo, tornou-se um verdadeiro chamariz para as aves.

Foi nesse cenário que os gêmeos Caíque e Cauê Possas, de 12 anos, transformaram a curiosidade pela natureza em um levantamento sobre as aves que visitam diariamente a residência onde vivem, algumas das presenças registradas são migratórias.

Segundo os irmãos, a paixão pela observação começou ainda muito cedo, influenciada pela mãe, a professora da rede municipal e bióloga Cíntia Possas, que costumava levar os filhos para atividades de observação em parques da cidade.

“Desde pequeno eu sempre passarinhava com a minha mãe. Quando a gente era bebê ela já levava a gente para o parque para observar as aves. Conforme fomos crescendo, fomos pegando o costume dela e começamos a passarinar também”, conta Caíque.

Foto: Pica pau verde barrado (Colaptes melanochloros) ave identificada no quintal.

Com o tempo, os passeios se transformaram em um novo hábito: observar as aves diretamente do quintal de casa. Foi nesse momento que os irmãos perceberam que havia muito mais diversidade do que imaginavam.

“A gente já tinha percebido que apareciam algumas espécies, mas quando começamos a observar com mais atenção vimos que tinha muito mais do que a gente achava. Aí começamos a passarinhar para identificar quais espécies vinham mais aqui no quintal”, explica Cauê.

As observações costumam acontecer nas primeiras horas do dia, quando as aves estão mais ativas. “De manhãzinha, por volta das seis ou sete horas, é quando elas aparecem mais. É o horário que saem para procurar alimento”, detalha Caíque.

Foto: Saí-andorinha (Tersina viridis) ave migratória identificada no quintal.

Para identificar as espécies, os irmãos passaram a utilizar aplicativos que ajudam a reconhecer o canto das aves e organizar os registros, que também são catalogados em uma planilha no Excel.

“Usamos um aplicativo que identifica pelo som. Quando o pássaro cantava, ele mostrava qual espécie podia ser. Depois a gente usava outro aplicativo para registrar e montar a lista das aves que a gente viu daqui de casa”, conta Cauê.

O levantamento revelou uma diversidade surpreendente: inicialmente foram registradas cerca de 78 espécies diferentes. Atualmente, o número pode chegar a 80 aves identificadas no mesmo quintal, enquanto os irmãos aguardam a confirmação de mais duas espécies.

Foto: Gêmeos durante a observação das aves no quintal de casa. Imagem: Elias Campos.

Entre os registros feitos pelos irmãos estão aves comuns da região e também espécies migratórias como a tesourinha, bem-te-vi-rajado, príncipe e suiriri.

“Todas são legais, mas algumas chamam mais atenção, como o papagaio-galego, o papagaio-verdadeiro e vários beija-flores. Das aves migratórias, vimos também o príncipe que pousou em uma das árvores daqui de casa”, diz Caíque.

Foto: O Príncipe, ave migratória presente em Campo Grande. Imagem: Simone Mamede/Reprodução.

Atração para as aves

Com um jardim repleto de variedades, as aves são visitantes frequentes. Segundo a mãe dos gêmeos, a diversidade de plantas contribui diretamente para atrair diferentes espécies.

“No nosso quintal temos várias árvores frutíferas e também espécies do Cerrado, como pitanga, acerola, amora, goiaba e jabuticaba, além de plantas como o ipê e outras árvores nativas. Inclusive a embaúba, onde eles ficam mais. Isso acaba atraindo muitas aves, porque elas encontram alimento e um lugar seguro para pousar”, explica a professora da rede municipal.

Foto: Gêmeos durante acompanhamentos no quintal de casa. Imagem: Elias Campos.

O hobby virou coisa séria

A curiosidade dos irmãos acabou se transformando em pesquisa científica. Em 2024, os dois conquistaram o primeiro lugar na Feira de Tecnologias, Engenharias e Ciências de Mato Grosso do Sul (FETEC-Jr) com o projeto “As aves do quintal”, que reúne os registros realizados por eles.

Para a mãe dos gêmeos, Cíntia Possas, acompanhar esse interesse pela natureza tem sido uma experiência especial.

“Tudo começou como uma forma de aproximar eles da natureza. A observação de aves é uma atividade simples, que pode ser feita em parques, praças e até no quintal de casa. Ver que isso despertou neles esse interesse pela ciência é muito gratificante”, afirma.

Foto: Gêmeos durante a feira.

Sobre a COP 15

Campo Grande se prepara para receber um dos mais importantes encontros internacionais voltados à conservação da vida silvestre: a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP15/CMS). O evento da Organização das Nações Unidas (ONU) acontece entre os dias 23 e 29 de março de 2026.

Para Cíntia, a realização do encontro em Campo Grande reforça ainda mais a importância de valorizar e preservar essa biodiversidade presente no cotidiano da cidade. E reforça que iniciativas como a conferência ajudam a ampliar a conscientização sobre a importância das espécies migratórias e da conservação ambiental.

“A COP15 traz essa discussão para mais perto da população. Quando as pessoas percebem que aves que cruzam continentes passam por aqui, nos parques ou até nos quintais, elas entendem melhor a importância de preservar as áreas verdes e os ambientes naturais”, destaca.

Para ela, experiências como a dos filhos mostram que a conexão com a natureza pode começar cedo. “Quando as crianças passam a observar e conhecer as espécies, elas criam um vínculo com a natureza. Isso faz com que cresçam entendendo a importância de cuidar do ambiente”.

Foto: Mãe e filhos durante ação no quintal de casa. Imagem: Elias Campos.

A família afirma que pretende participar das atividades relacionadas à COP15 durante o evento.

#ParaTodosVerem: Imagens de arquivo da família referente as aves avistadas no quintal e do instituto Mamede.

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