“Saúde no Campo” transformou a rotina da produtora rural e fortaleceu vínculos na comunidade
No assentamento Estrela, em Jaraguari, o que era para ser um atendimento do programa Saúde no Campo, do Senar/MS, se transformou em amizade e reuniu uma comunidade inteira de mulheres que não se viam há quase uma década. A iniciativa, que leva atendimentos de saúde e ações de acolhimento às comunidades rurais, trouxe um novo propósito para a vida da produtora rural Nair Barbosa. No afeto e cuidado da técnica de saúde, ela, que há muito tempo não via mais sentido na própria rotina, voltou a se sentir acolhida e pertencente à comunidade.
“Eu perdi a vontade de viver e foi quando o Senar/MS chegou na minha casa. Eu estava precisando de alguém que se interessasse pela minha vida. Alguém que dizia ‘não, você não pode ficar assim, vamos mudar isso’. Isso é muito importante na vida da pessoa”
Quem visita o sítio da dona Nair nunca sai de lá sem comer alguma coisa e tomar aquele café que só ela sabe fazer. Ainda pequena, a produtora aprendeu a ser gentil e acolhedora com todos ao seu redor e leva consigo o hábito de sempre cuidar com dedicação daquelas pessoas que fazem parte da sua vida. “Isso vem de família, a gente ser hospitaleiro”.
Porém, após perder uma amiga próxima que sempre a visitava, a casa foi ficando vazia e, aos poucos, a rotina de Nair mudou completamente. A produtora rural passou a enfrentar períodos de tristeza e desânimo, deixando de encontrar motivação até mesmo nas atividades mais simples da vida no campo. “Eu fiquei bastante triste, chorosa. Na realidade, eu perdi a vontade de viver”, desabafa.
Em meio à tristeza que carregava há tanto tempo pelo luto, a produtora não via mais saídas para a situação. Mas, quando a técnica de saúde rural Gláucia Villany, do programa Saúde no Campo do Senar/MS, foi à propriedade dela para fazer um atendimento, Nair se sentiu acolhida e, pela primeira vez em tanto tempo, pôde finalmente desabafar sobre suas dores e angústias desde a perda da amiga.
“Eu só queria que ela pudesse me ouvir, eu só precisava conversar com alguém e ela disse que tinha todo o tempo e que podia me ouvir, sim. Para mim, foi um divisor de águas; ela chegou e me mostrou que valia a pena eu continuar vivendo”, conta emocionada.

Nasceu a amizade
O programa Saúde no Campo atende comunidades rurais assistidas pela Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar/MS e oferece diversos serviços de saúde para os moradores do campo. Mas Gláucia explica que, às vezes, o remédio que o trabalhador realmente precisa é atenção e afeto. “Eu conseguia ver que eu poderia fazer a diferença não só no atendimento clínico, mas também no atendimento humanizado”.
Gláucia se tornou o ombro amigo que Nair tanto precisava naquele momento e conseguiu mostrar que ela não estava sozinha. Aos poucos, a tristeza foi diminuindo e os sentimentos foram se tornando mais leves para a trabalhadora rural. “É emocionante mesmo porque ali eu senti que eu não estava só resgatando alguém para o mundo real, mas alguém que precisava de um amigo, de um acolhimento e mais que um remédio. O remédio naquele momento não era físico, era para a alma e o coração”, explica.
Caminhada das Estrelas
Em busca de ajudar a dona Nair e outras mulheres do assentamento, a técnica decidiu criar um dia de caminhada entre as mulheres da comunidade, chamada “Caminhada das Estrelas”, em alusão ao nome da região. Ao todo, quase 140 mulheres da comunidade e de assentamentos próximos participaram da ação. “Hoje eu falo que realmente nós transformamos vidas, não só daqueles que nós atendemos, mas também as nossas vidas. É gratificante, de encher o coração, é saber que você está fazendo a diferença na vida da pessoa. Quando você chega e aquela pessoa está te esperando, e você sai dali com aquele sentimento de que ‘fiz o meu melhor e aquela vida eu transformei’, não tem preço
Foto: Arquivo Pessoal
Além de ter mais contato com os moradores do assentamento, dona Nair começou a ter novos hábitos e passou a cuidar mais da saúde. Uma das principais dificuldades da produtora era tomar água durante o dia, o que, segundo ela, ficou mais fácil depois de algumas dicas da técnica de saúde. “Eu não tomo água, não gosto de água. Ela pediu que eu colocasse limão e mudasse o sabor para que eu pudesse tomar mais. Mudei bastante meus hábitos porque ela pega bastante no meu pé”.
Atualmente, uma vez por mês a dona Nair recebe a visita da técnica Gláucia em sua casa para ter os cuidados necessários com a saúde e, principalmente, rever a amiga que a acolheu no momento em que ela mais precisava. “Eu não preciso mais me deslocar daqui para lugar nenhum. Ela averigua a minha pressão e conversa comigo, que é o mais importante”.
Assessoria de Comunicação do Sistema Famasul – Ana Carla Souza*
*Estagiária sob supervisão de Michael Franco