Entre retalhos coloridos, fitas, peças de jeans e o movimento das máquinas de costura, histórias diferentes se encontram em uma sala do Sesc Mais, no bairro Coophavila, em Campo Grande. As mesas improvisadas com caixas de supermercado do Sesc Mesa Brasil servem de apoio para tecidos que, em outras circunstâncias, poderiam terminar no lixo. Ali, ganham novos formatos, enquanto os participantes descobrem habilidades, compartilham experiências e encontram na costura uma possibilidade de renda.
O espaço reúne pessoas de diferentes idades, estilos e trajetórias. São 40 alunas e um aluno com deficiência, com participantes que vão dos 18 aos mais de 60 anos, envolvidos nas atividades do Envolva-se, programa de valorização social do Sesc MS. A proposta é ensinar a técnica do upcycling, que transforma roupas e materiais que seriam descartados em produtos com nova utilidade e valor comercial.
Para a artesã Marilza Zacarias Sabino, a costura já trouxe resultados concretos. Ela chegou ao projeto quando estava sem trabalho e procurava uma atividade que pudesse desenvolver. Desde 2025, participa das formações e já consegue comercializar suas criações em feiras, complementando a renda. Antes dedicada principalmente à produção de bolsas, agora comemora uma nova conquista: aprender a confeccionar coletes.
“Já é a terceira etapa de que participo e estou amando muito. Esse projeto me ajuda a desenvolver mais a criatividade. Consigo vender minhas peças na feira, sempre estou fazendo um modelo novo. Agora estou fazendo os coletes, que estou amando. Achei que não ia dar conta de fazer roupa e agora estou conseguindo”, conta.
A transformação de Marilza é um exemplo do que a instrutora Ivani Grance busca desenvolver nas aulas. Aos 56 anos, com mais de três décadas de experiência como costureira, formação em Ciências Sociais e mestrado em Antropologia Social, ela combina conhecimento técnico e acadêmico para trabalhar sustentabilidade, moda, empregabilidade e geração de renda.
Nas oficinas, calças jeans, camisas, camisetas e outros materiais são desmontados, recortados e reconstruídos. Uma peça antiga pode se transformar em bolsa, colete, acessório ou artigo de decoração. Ivani explica que o processo vai além da reciclagem convencional: a ideia é ressignificar o material, prolongar sua vida útil e evitar o descarte, agregando criatividade e conhecimento ao produto final.
Eu vejo a costura como uma ferramenta de transformação social. Aquela mulher que muitas vezes não tem mais espaço no mercado de trabalho, por idade, por problema de saúde ou qualquer outra questão que a tira do mercado formal, tem a costura como possibilidade de gerar renda e de ser incluída novamente no mundo do trabalho, com a flexibilidade que às vezes é necessária”, explica.
A instrutora também faz questão de combater a ideia de que a costura desenvolvida no projeto é apenas uma atividade para ocupar o tempo. As participantes aprendem a criar peças com identidade, acabamento e informação de moda, capazes de conquistar consumidores que valorizam a produção artesanal e o consumo consciente.
“Isso aqui não é só terapêutico. As pessoas costumam dizer que costura é terapia. Não, não é terapia. Isso aqui é dinheiro. A partir do momento que você pega um material que seria descartado e transforma em algo com valor, com informação de moda, você está produzindo objetos de desejo”, afirma Ivani.
A busca por conhecimento também levou Aline Macario, de 36 anos, à sala de costura. Ela trabalha com consultoria empresarial e visual merchandising e conheceu o Envolva-se por meio de coletivos ligados à moda e ao reaproveitamento de materiais. Diferentemente de Marilza, Aline ainda não comercializa suas produções. Seu interesse está em aprofundar o domínio da técnica e, futuramente, compartilhar o que aprendeu.
Durante o curso, já confeccionou saias e camisas e pretende ampliar as experiências com bolsas e acessórios. Para ela, o reaproveitamento de tecidos não é apenas uma tendência, mas uma resposta necessária ao volume de materiais que ainda podem ser utilizados e acabam descartados.
“Eu acredito que o upcycling é uma solução para a moda, para o futuro. Na verdade, para o agora, não é nem para o futuro. A gente tem um descarte muito grande de materiais, de tecidos que são bons e que poderiam ter mais uma vida útil”, observa.
Aline acredita que o conhecimento adquirido pode alcançar outras pessoas e multiplicar os benefícios ambientais e econômicos da iniciativa. Seu objetivo é continuar estudando até ter condições de produzir mais peças e transmitir as técnicas a novos interessados.
Para manter as atividades, o Envolva-se também depende de doações de roupas e tecidos que possam ser transformados nas oficinas. Os materiais precisam estar em bom estado e higienizados, permitindo que os participantes desenvolvam novas criações a partir de peças que deixaram de ser utilizadas.
O programa abrirá novas vagas em janeiro, com turmas para iniciantes e participantes de nível avançado. As informações sobre inscrições e critérios de participação serão divulgadas no site e nas redes sociais do Sesc MS.
O Sistema Comércio MS é composto por Fecomércio MS, Sesc MS, Senac MS, IPF e sindicatos empresariais. A entidade é presidida por Juliano Wertheimer e administrada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), presidida por José Roberto Tadros.

