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Telas na infância: como o excesso pode afetar o desenvolvimento infantil

Dr. Warllon de S. Barcellos Médico fala sobre Neuropediatria e desenvolvimento infantil.

Nos últimos anos, celulares, tablets e televisões passaram a fazer parte da rotina das famílias de forma cada vez mais precoce. Não é raro encontrar crianças pequenas utilizando dispositivos eletrônicos antes mesmo de desenvolver plenamente a linguagem. Essa mudança no ambiente em que as crianças crescem levanta uma discussão importante: qual é o impacto das telas no desenvolvimento infantil?

A infância é um período de intensa formação cerebral. Nos primeiros anos de vida, o cérebro estabelece milhões de conexões neurais a partir das experiências vividas pela criança. Interação com os pais, brincadeiras, exploração do ambiente e comunicação são estímulos fundamentais nesse processo. É nesse período que se constroem bases importantes para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social.

Quando o tempo dedicado às telas passa a substituir essas experiências, pode haver repercussões importantes no desenvolvimento.
O que dizem as recomendações pediátricas

De acordo com orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria, o uso de telas na infância deve ser limitado e supervisionado pelos pais. As recomendações apontam que crianças menores de dois anos não devem ser expostas a telas. Entre dois e cinco anos, o uso deve ser restrito a até uma hora por dia, sempre com acompanhamento de um adulto. Já entre seis e dez anos, o tempo recomendado é de até duas horas diárias, enquanto para adolescentes o uso deve ser monitorado e equilibrado dentro da rotina familiar.

Além da duração do uso, a Sociedade Brasileira de Pediatria também orienta que as telas não substituam momentos importantes do cotidiano, como as refeições em família, as brincadeiras e o período de sono.
Impactos do excesso de telas

Diversos estudos têm apontado associação entre o uso excessivo de dispositivos eletrônicos e alterações no desenvolvimento infantil. Um dos efeitos frequentemente observados está relacionado ao desenvolvimento da linguagem. A linguagem se desenvolve principalmente por meio da interação social. Conversas, troca de olhares, expressões faciais e respostas emocionais ajudam a criança a aprender a se comunicar e a compreender o mundo ao seu redor. A tela, por mais interativa que pareça, não substitui essa troca humana e, quando ocupa grande parte do tempo da criança, pode reduzir oportunidades importantes de comunicação.

Outro ponto que tem sido discutido é a relação entre o uso excessivo de telas e dificuldades de atenção. Muitos conteúdos digitais são produzidos com estímulos visuais intensos, mudanças rápidas de imagem e sons constantes. Esse padrão de estímulo pode levar o cérebro da criança a se adaptar a um nível elevado de excitação sensorial, tornando mais difícil manter a concentração em atividades que exigem maior tempo de foco, como leitura, tarefas escolares ou brincadeiras mais estruturadas.

Também há impactos relacionados ao sono. A exposição à luz azul emitida por celulares, tablets e computadores pode interferir na produção de melatonina, hormônio responsável pela regulação do sono. Isso pode atrasar o início do sono e prejudicar sua qualidade, levando a irritabilidade, cansaço e dificuldade de concentração durante o dia.

Além disso, o aumento do tempo diante das telas pode contribuir para a redução da atividade física. Quando grande parte do tempo livre é ocupada por dispositivos eletrônicos, diminuem as oportunidades de movimento e brincadeiras ativas, o que pode favorecer o sedentarismo e aumentar o risco de obesidade infantil.
A importância do mundo real no desenvolvimento.

O desenvolvimento saudável da criança depende de experiências concretas e da interação com o ambiente. Brincar, correr, explorar espaços, criar histórias e interagir com outras crianças são atividades fundamentais para o crescimento físico, cognitivo e emocional.

Brincadeiras simples, muitas vezes esquecidas na rotina atual, têm enorme valor para o desenvolvimento infantil. Atividades como jogos de tabuleiro, leitura em família, brincadeiras ao ar livre, desenho, atividades artísticas e práticas esportivas estimulam criatividade, linguagem, habilidades sociais e autonomia. Esses momentos também fortalecem vínculos familiares e contribuem para a construção da autoestima da criança.

O papel dos pais no equilíbrio digital

A tecnologia faz parte da vida moderna e dificilmente será completamente evitada. O desafio não é eliminar o uso de telas, mas encontrar um equilíbrio saudável entre o mundo digital e as experiências reais.

Algumas estratégias podem ajudar nesse processo. Estabelecer limites claros para o tempo de uso é um passo importante, assim como evitar o uso de telas durante as refeições e retirar dispositivos eletrônicos antes do horário de dormir. Também é fundamental estimular atividades presenciais, brincadeiras e momentos de convivência familiar.

Outro aspecto importante é o exemplo dado pelos adultos. Crianças aprendem observando o comportamento dos pais e cuidadores. Quando os adultos utilizam a tecnologia de forma equilibrada, tendem a transmitir esse mesmo padrão de comportamento para os filhos.
Construindo uma infância saudável

A infância é um período único, marcado por descobertas, curiosidade e interação com o mundo. Garantir que as crianças tenham oportunidades de explorar o ambiente real é essencial para o desenvolvimento saudável.

A tecnologia pode ser uma ferramenta útil quando utilizada com equilíbrio e propósito. No entanto, ela não pode substituir aquilo que sempre foi fundamental para o crescimento infantil: o brincar, a convivência familiar, o contato humano e a liberdade de explorar o mundo.

Promover esse equilíbrio é um dos grandes desafios da educação e da parentalidade na sociedade contemporânea.

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